29 de maio de 2009

O poeta, o analista e o tradutor

Postado por André Cerqueira

O poeta, o analista e o tradutor

O que poderia haver de comum entre os três? Onde a essência de cada um deles?
O poeta é tão velho quanto os tempos. O começo de tudo, diz a Sagrada Escritura, é a palavra – “No princípio era o Verbo...” O primeiro tradutor conhecido foi São Jerônimo, tradutor da Bíblia e patrono dos tradutores. Freud, o inventor da psicanálise, valeu-se muitas vezes dos versos dos poetas. Cita freqüentemente, entre outros, Friedrich Schiller, William Yeats, Homero, em sua obra e recomenda que aos poetas se recorra para entender a feminilidade. O tradutor traz a voz do poeta para que o mundo inteiro conheça. O analista descobre o sujeito do inconsciente na sua eterna submissão à palavra e ao desejo, o ser que se faz humano pela cultura porque pode falar com palavras.
Por mais incrível que possa parecer é o instrumento de trabalho, a identificar os três misteres. Todos eles trabalham a mesma matéria-prima, mas cada qual na sua forma específica de trabalhá-la, dando-lhe destinos diversos e formas variadas. É a metáfora o instrumento de trabalho do poeta, do analista e do tradutor. Metáfora que o poeta faz surgir do cotidiano, do real e da singeleza da vida. Pérolas que descobre incrustadas no comum e no trivial. O poeta faz belo o vulgar e desvenda a beleza invisível. Metáfora que o analista interpreta e escande no sonho, na fantasia, no discurso e no sintoma para fazê-los acessíveis ao cliente, tonando-os legíveis e inteligíveis mas sobretudo passíveis de serem abordados.
Do mesmo modo que o poeta e o analista traduzem, cada qual a seu modo, as metáforas, o tradutor as re-cria, re-lê e re-inventa em seu texto, procurando, muitas vezes aturdido e angustiado, recuperar algo da beleza ou da essência iniciais para transmiti-las ao novo leitor. A metáfora para o tradutor está basicamente nas palavras mas sobretudo na materialidade da sua forma, nos aspectos visuais e em seguida nos sonoros e rítmicos. O analista conhece primeiro o significante em seu aspecto sonoro ainda quando dele se valha o seu cliente para reproduzir as imagens pictóricas do sonho. O poeta brinca com a palavra, ao mesmo tempo, na sonoridade, no ritmo e na imagem. A condensação para ele é indissolúvel. Mas essa condensação, o analista tem que des-fazer sem des-truir, separando os elementos até reduzi-la ao mais simples, ao significante primeiro. E essa mesma condensação o tradutor escande exaustivamente para criar na língua de chegada, a expressão mais próxima do belo, do fiel e a mais pura de que for capaz sem repetir apenas, mas re-criando o novo, sem des-pedir-se inteiramente nem des-prezar totalmente o texto da língua de partida. O poeta canta as emoções, traduz-lhes o brilho, o calor, o colorido. As palavras não bastam em si mesmas para o tradutor. Em suas escolhas ele busca o tom, a luminosidade e vibração que permite ao leitor uma leitura enriquecida e lacunar do seu texto, suscitando novas leituras e emoções. O analista perfunde o discurso que escuta do seu cliente, com um saber que vai permitir a esse cliente, a leitura das suas próprias emoções.
Todos eles divisam a abstração do concreto, aguçam os sentidos e permitem ver além do simples olhar. O tradutor traduz o mundo para o homem, o poeta traduz o homem para o mundo e o analista permite ao homem traduzir-se a si mesmo. O poeta reflete o mundo, o tradutor reflete os vários mundos e os interliga, o analista permite ao seu cliente refletir-se para refletir o mundo de si mesmo. O poeta materializa, humaniza ou coisifica a palavra, o tradutor, vítima das trapaças e armadilhas da palavra, luta para vencê-las e passá-las adiante em novas palavras. O analista a utiliza nos seus engodos e tropeços para permitir ao sujeito encontrar a verdade.
O poeta permite ao leitor brincar com as palavras, sílabas ou frases para desfrutar do texto a seu bel-prazer. O tradutor utiliza o máximo que pode da polissemia do seu texto para, resgatando o essencial do primeiro, recriar o seu. O analista condensa numa interpretação a polissemia do discurso analítico. Para os três o texto é sempre inesperado.
Têm estes três um modo especial de escuta, por ouvirem nas entrelinhas; a escuta do psicanalista vai pontuando, marcando e recortando o texto do cliente. A escuta do tradutor vai pontuando, marcando e reescrevendo o texto primeiro, como um palimpsesto. A escuta do poeta é a escuta do mistério, do belo e do prenúncio. O psicanalista escuta o não-dito. O poeta vê o não-visto e o tradutor lê o não-escrito.
Voz própria não tem o analista, como não a têm o tradutor ou o poeta. Cada um deles escuta; o analista, o seu cliente, o tradutor o texto de um outro e o poeta a escritura da própria vida. E cada um deles fala em nome de quem ouve ou permite que possam outras vozes ecoar.
O poeta constrói com o leitor um espaço mágico onde as palavras se tornam animadas. O tradutor constrói com o leitor as pontes de conexão entre dois mundos diferentes fazendo-os às vezes parecer quase iguais nas diferenças. O analista constrói com o cliente o espaço do inconsciente, atemporal e desconexo, capaz das maiores contradições.
Para os três o texto soa como algo inacabado e transitório, algo de um saber inacabado, incompleto, que os faz cientes da sua falta e incompletude, capazes de promoverem todos três, a eterna possibilidade de criação.
Referências:
Acesso em 15-01-2009 (às 22:30:35 hs)

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